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A Pottersville no cinema e a Trumpland no documentário

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.10.16

 

Voltar a este rio sem regresso por causa do Trump? Não é bem assim. Tudo começou com uma perplexidade: ver uma personagem como Trump ficar na corrida presidencial americana até ao fim.

Lancei um desafio a mim própria: escolher um filme por semana no It Happens every Spring até às eleições de Novembro. Nem sempre consegui cumprir, saltei algumas semanas. Além disso, comunicar em inglês é mil vezes mais difícil para mim do que em português. Às tantas já me ouvia a falar como algumas personagens dos filmes americanos que vi ao longo dos anos...

O desafio era revelar a influência do cinema na cultura americana, os valores que se foram perdendo, a cultura do lixo a invadir tudo, a política, os media, a vida em geral.

O cinema revela mais do que parece. Através das personagens, da sua acção na comunidade e da sua interacção com outras personagens, vemos e sentimos o mal-estar, a inquietação, o desânimo, a esperança, e a construção de um futuro possível. A arte serve para revelar, sacudir e acordar.

Foi assim com a cidade do Potter em It's a Wonderful Life. A rendição de uma comunidade ao lucro como único valor a seguir, passando a ferro a dignidade, autonomia, qualidade de vida e perspectivas de futuro das pessoas. 

 

 

Esse mundo paralelo só não prevaleceu porque uma personagem generosa, corajosa e determinada, George Bailey, tinha uma visão para a comunidade e persistiu até ao limite das suas forças. E depois teve um anjo a lembrar-lhe o que tinha já conseguido na sua vida.

 

Desta vez é um documentário que vai sair esta semana: Michael Moore na Trumpland. Promete.

 

 

As semelhanças Trump-Potter são evidentes. Mas Trump consegue ir mais longe na cultura da encenação e do entretenimento. Por isso o comparei a Nero a tocar a lira enquanto Roma ardia. Digamos que Potter é manhoso e inteligente no seu propósito e consegue ser bem sucedido nos negócios. Trump destrói com a mesma facilidade com que constrói, e aqui temos a cultura do lixo no seu esplendor, nada tem valor a não ser a sua utilidade no momento, lucro mas sobretudo a fama, nada perdura no tempo, nem o que se diz nem o que se faz, nada é para levar a sério. Tudo roda à sua volta como uma grande corte de fãs, de serviçais e figurantes que despreza. É com o mesmo desprezo que trata os empregados dos hotéis e casinos e dos empreendimentos que faliram. Essas construções monstruosas agora vazias dizem tudo sobre a personagem e a cultura do lixo. Nada fica a não ser comunidades desorientadas e desorganizadas.

Daí a perplexidade: será a sua revolta de tal dimensão (contra um sistema injusto, que se rendeu à finança e ao clã dos muito ricos e influentes e exclui a maioria dos cidadãos, que colocou famílias na rua e deixou casas desertas, que encarcerou uma fatia enorme da população sobretudo afro-americnos, etc.), que preferem render-se a esta espécie de Joker?

 

 

 

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publicado às 09:24

A vida, através dos filmes, a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.13

Este rio sem regresso já trouxe muitos filmes consigo mas é da vida que trata. A vida é que sobressai em tantos filmes...

Já o disse aqui que no cinema prefiro o que é verosímil, próximo da realidade. A fantasia delirante não me atrai, embora lhe possa reconhecer valor artístico e cinematográfico. É a realidade que me seduz, a vida, a experiência, as emoções, os sentimentos, um percurso, um caminho, as consequências de cada decisão e de cada escolha, os imponderáveis, as surpresas, os encontros e desencontros, as expectativas.

 

Alguns filmes trazem-nos a vida lá dentro, nas personagens sobretudo, na forma como encaram as situações, como se adaptam ou  modificam as suas circunstâncias, por vezes adversas, como enfrentam os desafios. Digamos que há filmes inspiradores. Tal como os livros, só que com vozes lá dentro, os sons e os silêncios, os risos e as lágrimas, e por vezes os lugares, as árvores, as cidades, as atmosferas. É essa a possibilidade do cinema que destaco e registo na alma, a densidade de uma atmosfera. 

Para tudo isto acontecer - e tantas vezes é a sorte de felizes encontros -, entra um grupo de pessoas, o guionista, o realizador, o produtor, o director de fotografia, os actores, o compositor, e sabe-se lá mais que influências, que conversas, que trocas de ideias, cada um a colocar um pouco de si próprio no trabalho final. 

Mas é ainda ao realizador e ao seu olhar único sobre uma ideia, um guião, que podemos atribuir a atmosfera única de cada filme, é esta a minha convicção. O seu olhar prevalece, mesmo que trabalhe em equipa como parece ser a tendência actual. Já lá vão os tempos de realizadores autocráticos como o Hitchcock ou maníacos como Orson Welles. E tantos outros génios do Cinema.

 

Já aqui fiz um dia um apanhado das décadas de Cinema a navegar neste rio. Hoje deixo aqui uma actualização, não apenas por décadas de Cinema mas também pelos realizadores mais representados:

 

A 1ª década de 2000 continua a mais representada com 37 filmes. Além dos referidos na altura, gostaria de destacar que, destes apresentados mais recentemente, o tema central é a violência. A sua natureza original na própria família e cultura de grupo, no incómodo e angustiante O laço Branco. A violência silenciada e aceite na reviravolta política da África do Sul em Disgrace. Uma outra forma de violência, a indiferença, mais grupal e das organizações do que a individual, em Babel. Indiferença, distância emocional e frieza nas empresas actuais e na forma como se descartam de recursos humanos em Nas Nuvens. A violência da guerra, neste caso a do Iraque, mas pode aplicar-se a todas as guerras, em Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone). A violência e o caos generalizado numa projecção num futuro não muito distante em Children of Men.

Para nos consolar de tanta violência, só mesmo o humor de Woody Allen em A Maldição do Escorpião Jade, Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works).

De destacar ainda a mudança de perspectiva de um homem de meia idade: um, sobre o balanço da sua vida em As Confissões de Schmidt, o outro, o desafio que é lidar com a genica de um grupo de senhoras idosas, em Pranzo di Ferragosto.

 

A década seguinte mais representada é a dos anos 50 com 29 filmes. Além dos já aqui referidos, estes são todos magníficos: mais um William Wyler, Desperate Hours, mais um Anthony Mann, The Tin Star, mais um Douglas Sirk, Written in the Wind, um Billy Wilder, Sunset Boulevard, e um Robert Wise, Executive Suite.

 

A seguir, com 21 filmes, a década de 90, com mais este Jerry McGuire, e com 17 filmes, a década de 80, com mais estes Finnegan e O Turista Acidental.

 

A década de 40 não está mal representada apesar de tudo. São 13 filmes no total, acrescentados mais um Hitchcock, Rebecca, e um King Vidor, The Fontainhead.

 

As décadas menos representadas mantêm-se a de 60, com 9 filmes, a de 70 com 7, e a de 30 com 5, já apresentados na altura.

 

Quanto a realizadores, os mais representados e referidos são: John Huston com 6 filmes e referências a filmes, Steven Spielberg com 5, Frank Capra e Woody Allen com 4, William Wyler e Alfred Hitchcock com 3, John Ford, Joseph Mankiewicz, Elia KazanDouglas Sirk, Anthony Mann, Ingmar Bergman e Robert Wise com 2.

 

Estes são os grandes, entre outros, realizadores, numa época em que a realização era uma arte original, a desbravar caminhos, a experimentar planos e sombras, a adaptar a narrativa à linguagem própria do cinema, e a  escavar mais fundo na alma humana, no seu lado luminoso e no seu lado mais negro.

Hoje o Cinema tem outros desafios, pode escolher a maior simplicidade e naturalidade ou a maior complexidade e artificialidade, pode jogar, simular, cortar e colar, num ritmo muito mais veloz e adaptado ao tempo actual, sincopado e ansioso, por vezes ansiógeno.

 

Mas estes realizadores, entre outros, são muito mais do que pioneiros numa arte e numa linguagem única, imagem, movimento e som. Criaram uma atmosfera única, um olhar completamente novo, a frescura de todos os inícios e descobertas.

 

Para animar os Navegantes deste rio, e como síntese de homenagem a todos os realizadores que aqui navegam também, aqui fica uma cena de Manhattan com um dos pares que melhor funcionaram nos diálogos da comédia woodiana. Manhattan, como já repararam, é um dos meus filmes preferidos. Uma boa navegação... e não se deixem desviar por nevoeiros...

 

 

 

 

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publicado às 23:16

Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

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publicado às 20:13

Valores humanos fundamentais: a liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.12

Volto a este rio num dia de nevoeiro, real e metafórico. Sei falar de nevoeiros, conheço-os, já me vi metida na sua densidade perturbadora. Quem nasceu neste país e teve de interagir com a cultura do nevoeiro e com os que a abraçaram para daí ter vantagens, poder e visibilidade, mesmo atropelando tudo e todos, sabe até que ponto é difícil defender um valor fundamental, a liberdade de viver e trabalhar sem obstáculos.

Este rio vai dedicar-se a este valor e a outros, como a justiça e o equilíbrio entre direitos e deveres, como uma pessoa simples enfrenta as injustiças, como a verdade acaba por prevalecer, ou como os nevoeiros deste mundo se vão aclarar finalmente à vista de todos.

 

Para navegar esta corrente do rio dos valores humanos fundamentais, e esta é a época certa para falar deles, trago de novo Mr. Smith Goes to Washington.

Aqui vemos um único homem a enfrentar poderosos oponentes. Do seu lado tem apenas um ideal maior do que si próprio, alguns amigos leais, uma secretária experiente que sabe tudo o que há a saber sobre os obstáculos que vai enfrentar.

Aqui também vemos como funciona a linguagem do poder, o tal nevoeiro que persiste.

E finalmente vemos como a verdade e a justiça prevalecem, como tudo se aclara no fim, ainda que à custa de muita dedicação e persistência.

 

 

Mr. Smith Goes to Washington é um Frank Capra, não esquecer. Já navegam neste rio quatro Capras pelo menos, e todos dos anos 30. Frank Capra liga muito bem com o Natal e com os valores humanos fundamentais.

 

 

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publicado às 19:23

Sobre paraísos perdidos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.10.09

 

Revi recentemente Lost Horizon de Frank Capra e se é possível ficar-se ainda mais fascinado numa segunda vez do que à primeira, foi o que me sucedeu com este filme.

A cópia estava restaurada, como li no genérico final, e isso facilita muito, claro está.

Há uma frescura neste filme: na fotografia, na montagem e nalgumas cenas. Conseguimos datá-lo essencialmente pelos cenários com um design muito anos 30 e pelas fatiotas que, aliás, são magníficas.

É na narrativa e na montagem que o filme se destaca, a meu ver: na primeira vez que o vi resisti um pouco ao atrevimento da montagem de alguns diálogos em que a imagem é simplesmente congelada enquanto a personagem continua a falar.

 

O tema é mesmo Capra, o realizador idealista, das grandes causas, dos temas elevados, que envolvem a vida social das comunidades. Aqui numa perspectiva mais filosófica e avançada, colocando o paraíso utópico ao alcance da humanidade. De certo modo, em todos os seus filmes a utopia está presente, implícita pelo menos, no idealismo dos seus heróis.

Se nos outros filmes os heróis conseguem melhorar um pouco as suas comunidades (bem, em It's a Wonderful Lifeessa mudança é mesmo radical), aqui o herói descobre o paraíso que está ali ao seu dispor, que pode habitar e nele permanecer até ao final dos seus dias.

E tudo acontece num momento inesperado, sem a vontade prévia das personagens que surgem, ou antes caem do céu (literalmente, o avião despenha-se) nesse lugar protegido entre as montanhas do Tibete: Shangri-La.

O diplomata pacifista, Robert Conway, o nosso herói, identifica-se quase de imediato com o lugar onde não há doenças ou guerras. Identifica-se com a sua filosofia e organização social. Ah,  entretanto apaixona-se pela rapariga. Mas isso é depois do fascínio pelo próprio lugar.

 

De todas as personagens, a mais realista é, a meu ver, George Conway, o irmão do nosso herói, o que procura por todos os meios sair daquele lugar perdido nas montanhas. É a personagem mais à escala humana, digamos assim, mais verosímil.

Tudo fará para voltar para o conhecido, a civilização. E mesmo o facto de ter encontrado uma rapariga amável e carinhosa que o tenta convencer a ficar, nada o fará desistir.

As restantes personagens vão-se adaptando naturalmente ao lugar, depois da estranheza inicial. Encontram um objectivo, um como educador, outro como construtor.

 

As minhas cenas preferidas:

- naqueles cenários de design hollywood-anos 30, com canteiros muito arrumadinhos, tudo muito florido, aparece a rapariga a cavalo e o nosso herói resolve persegui-la a cavalo também. A paisagem é toda ela organizada e a natureza acolhedora, como se o clima fosse sempre assim afável e temperado, o paraíso de facto. A rapariga resolve ir nadar no lago, tal como terá sido nos paraísos originais, antes do voyeurismo civilizacional. O nosso herói é um gentleman e apenas a observa de longe. Por fim, compõe um boneco com a roupa da rapariga e afasta-se.

- o diálogo com o High Lama deste Shangri-La que o nosso herói descobre ser o francês que chegara ali há cerca de duzentos anos. O chefe espiritual daquela comunidade, o homem que depois da viagem pelas montanhas ainda tivera de amputar uma perna, e que se dedicara àquele lugar e à sua comunidade. Toda esta situação e a descoberta da idade incrível daquele homem, sentado à sua frente com um sorriso constante no rosto, seria suficiente para aterrorizar qualquer um, mas não o nosso herói. Aquela figura frágil diz-lhe mesmo que estava à sua espera para dar continuidade ao seu trabalho e o nosso herói não se deixa assustar com a ideia, embora não se sinta propriamente à altura. E quando descreve este encontro e este diálogo (resumido) aos colegas de aventuras, é com um rosto emocionado e inspirado.

- a incrível aventura da tentativa de regresso à civilização, por insistência de George, o irmão do nosso herói, em que acabam por levar a rapariga amável e carinhosa. A decisão da partida é mesmo dramática. O nosso herói sente-se dividido e se decide partir será apenas para salvar o irmão. Avisa-o, no entanto, da situação da rapariga, cuja idade não é a que aparenta naquele lugar onde se pode chegar a centenário com a maior das facilidades, mas que dali saindo passará à condição de mortal com prazo limitado de vida. A própria rapariga quer arriscar, também ela avessa a um paraíso programado à medida dos utópicos. Reparem na fotografia, nessas montanhas agrestes, na luta pela sobrevivência, quase parece cinema mudo, na mímica dos corpos e tudo. E reparem no horror de George ao ver a rapariga envelhecer de repente. A verdade é demasiado horrível para o rapaz que se despenha num precipício.

 

Bem, como os paraísos perdidos não são para todos, e eu arriscaria mesmo a dizer que não são à escala humana mas à medida das personagens ou dos visionários, o nosso herói irá tentar até à última voltar àquele lugar. E consegue-o, tudo indica que sim. Pode chegar lá em péssimo estado, mas chega.

 

Aqui não vemos o confronto do herói com uma sociedade cínica e hipócrita, como em Mr. Smith Goes to Washington (que também revi recentemente) ou em Mr. Deeds Goes to Town; nem com as suas próprias frustações e sonhos adiados, como em It's a Wonderful Life; nem mesmo um herói a ser transportado do anonimato ao poder por uma sociedade-espectáculo, como em Meet John Doe; e também não estamos num mundo hostil em que as pessoas se esfalfam para sobreviver, mas em que pode surgir a amabilidade e generosidade mais genuínas, como em It Happened One Night.

Aqui tudo é filosófico e poético, amável e harmonioso, afável e acolhedor. Mas porque é que este paraíso não nos deixa tentados, curiosos? Dá que pensar...

Em todas as histórias de paraísos, porque é que os homens os abandonam ou são expulsos? Ou simplesmente sonham com eles, antecipam-nos, mas nunca os descobrem...? Dá que pensar...O que me levou a questionar: serão as utopias habitáveis?

É que, tal como George, também eu quereria regressar ao mundo imperfeito da vida mortal com prazo limitado, ao mundo imperfeito do cinismo e hipocrisia, das paixões e erros... mas onde também mora o imprevisto e o acidental... e onde às vezes, onde menos se espera, se descobre a pura magia de um gesto genuíno.

 

 

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publicado às 21:43

Quando o homem da notícia se apaixona pela protagonista da notícia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.07.08

 

It happened one night. A rapariga mimada que foge do papá protector para casar com um playboy e o jornalista ambicioso que quer contar a história.

E é a partir desta história que Frank Capra nos mostra a América dos anos 30, a América da Depressão, a América das enormes desigualdades sociais e do "Salve-se Quem Puder", do sensacionalismo, do desenrascanço, do oportunismo, mas também da solidariedade, sensibilidade, simplicidade e autenticidade.

Só por aquela cena do autocarro de longo curso, vale a pena ver o filme! Aqui temos, de certo modo, o povo americano musical e solidário, que enfrenta adversidades com alegria e humor. Esta cena é das mais fascinantes que eu já vi em cinema!

 

Mas muitas outras cenas, algumas comoventes, outras hilariantes:

As cenas do motel, onde aparecem nítidas as diferenças culturais e de comportamento social, os diferentes modos de lidar com o mundo e a realidade. A timidez e snobismo da rapariga a contrastar com a descontracção e auto-confiança do jornalista.

Dormir ao relento, cena poética e reveladora de um novo sentimento a surgir e a surpreendê-los.

A travessia do rio, com a rapariga às costas do jornalista.

A pedir boleia, esta talvez a mais conhecida.

A conversa do jornalista com o pai da noiva, para ver "como se parece o amor quando é triunfante".

E, claro!, a clássica fuga da noiva, véu ao vento, do seu próprio casamento.

 

E é bem verdade que aqui "o amor triunfa" com direito a lua-de-mel romântica, no motel que tinham partilhado ao longo desta aventura.

 

 

Também aqui, a navegar...

 

 

 

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publicado às 11:02

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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publicado às 16:30

Mr. Smith Goes to Washington

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.11.07

Os melhores filmes dos anos 30 e 40 passaram na RTP nos anos 60, 70 e, mais tarde, em vários ciclos na RTP2. O que aconteceu entretanto para nada voltar a ser como dantes?

Frank Capra passa agora apenas no Natal: It's a Wonderful Life

Criticado como um idealista, Capra é muito mais do que um idealista. E ser idealista é ser menor? A meu ver, ter um ideal é fundamental. Apontar para uma qualquer existência com qualidade para todos, é fundamental. Defender a dignidade de cada indivíduo, é fundamental. Lembrar valores como autenticidade, maturidade, responsabilidade, autonomia, amizade, lealdade, é fundamental.

Mr. Smith Goes to Washington revela precisamente o choque de um idealista com a realidade do poder. Capra dá a volta à situação. E se… bastasse um idealista para desmontar negócios pouco claros, jogos de interesses? Se bastasse um idealista para devolver os valores autênticos àquele espaço nobre, o Congresso?

Capra desmonta a realidade social e ao fazê-lo de uma forma suave ou romântica, isso não lhe retira a eficácia. A mensagem passa.

A montagem das cenas, a gestão do tempo, a utilização do guião, são perfeitas. Nem pesada, nem leve demais, nem apressada, nem lenta. E isso é de génio. Onde é que voltámos a ter aqueles diálogos em cinema?

Capra dá ao indivíduo uma dimensão significativa na comunidade. O indivíduo pode resistir a ser diluído ou mesmo triturado pela comunidade, pelo grupo, pelo poder. Ele tem um lugar. Ele existe. Há um equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade. Apoiam-se mutuamente. Para Capra isso é possível. E nós também desejamos que assim seja.

 

 

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publicado às 12:08


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